terça-feira, 13 de março de 2012

Delírios II

Meu amor, sinto-me bem
apesar do sentir, senti-lo um pouco aquém
do ideal que seria senti-lo sem
esta necessidade de ficar acordado, abraçado
às memórias dos momentos que passámos juntos
nas mensagens soltas trocadas, não editadas
e, ainda assim, publicadas.
Sinto-me bem, meu bem
por te sentir cada vez menos aquém
mais próxima, porém, distante como convém.
Um dia, inventarão para consumo ordinário
esta forma de amar literário
que foi o pretexto que nos uniu.
Um dia, numa noite enorme
enquanto um sonha e o outro dorme
e nos revezarmos na clarividência da união
trocando naturalmente de posição
nesse dia meu bem, nesse dia além de eu, serei tu também
e tu e eu e nós e ambos juntos a sós, um outro alguém.
Boa noite, dorme bem.

Joaquim Marques AC

sexta-feira, 2 de março de 2012

Delírios

Está frio, Adriana
não me sentes ao arrepio
do tempo presente que desfio
horas a fio contigo deitado na cama?
Encosta o teu corpo ao meu
faz de conta que não sou eu
este frio que de mim emana
querida Adriana
arrefece-me o pensamento
deixo o tempo correr até anoitecer
em delírios febris sonhados a besuntar-me de lama
num clima tropical onde o calor é intenso
e só preciso de ti para sobreviver.
Estamos ambos frios,  apagou-se a chama
há uma nuvem a tapar-nos o Sol, Adriana
acende o candeeiro, pode ser que assim a paixão não arrefeça
o tempo pare e o amor aconteça.

quinta-feira, 1 de março de 2012

És uma pessoa de quem eu gosto
é um gostar de bem querer
um desejo de bem na vida ver-te viver
num pôr do Sol que até aposto
que o mau dia te fará esquecer.

És colibri de mil cores
és roseira que à vida dará flores
és pradaria sem fim
és um gostar de ser como eu gostaria de mim.

És Presente em qualquer ausência
és profeta, sacerdotisa, eminência
és cintilante na escuridão do firmamento
és o pacto com o  amor que fiz neste momento.

Estás assim, tão longe e tão cerca de mim
tão bela que o mais belo não se parece assim
és poesia na rocha escrita
és o Futuro que vence a desdita.

Quero-te não te querendo
tenho-te não te tendo
gostar de ti é um precisar
de gostar por gostar sem mais acrescentar.

Joaquim Marques AC

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Nem sempre sei o que quero
mas quero que se saiba
que, do que não quero,
tenho absoluta certeza.

Joaquim Marques AC

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Inspiração

Estou sem sono
Já escrevi tanta asneira
Apaguei tudo mais que uma vez
E não sei se será desta vez
Que o escrito verá a luz do dia...
Por isso inspiração recalcada
Não adormeças tu
E me deixes aqui com a mente acordada.
Que tal um pacto de não agressão?
Eu termino este sermão
Se tu te levantares e me vieres ajudar
Depois publicamos o escrito
E vamo-nos os dois deitar.
Concordas inspiração preguiçosa?
Não sei porque ainda te suporto,
Um dia destes vou à loja do chinês
Comprar uma inspiração de plástico...
Ai vou, vou
Estás a ler o que está a sair?
Esta bosta de escrito... e tu a rir!
Vá lá inspiração dum cabrão
Estou-te com uma raiva...


Joaquim Marques

domingo, 5 de fevereiro de 2012

Hoje, que ainda é ontem, fumo o último cigarro
fumo-o porque me apetece
e às vezes acontece
pensar nos que resolvem pensar a vida por mim
cuidarem do meu bem estar
como se, algum dia, no seu lugar eu devesse estar
um parasita pensador
que pensa na vida sem dor
que há-de vir no futuro
morrer saudável sem custos para o Estado.

Joaquim Marques AC

domingo, 22 de janeiro de 2012

Só tenho um compromisso
é com o tempo
deixá-lo passar
sem qualquer lamento.

Joaquim Marques AC

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Vejo-te a saltitar
de país, de lugar
tenho-te debaixo de olho
e não sei como te agarrar
-leva-me contigo.

Joaquim Marques AC

domingo, 15 de janeiro de 2012

Quando vieres
Já não me vais encontrar
Nem o abraço que me deres me vai ressuscitar.

Eu fui aquele que conheceste
Mas a aparência que vou demonstrar
Não é a da mesma pessoa.
Hoje sou como um cipreste
Que ornamenta o lugar do morto
Mas que se recusa a crescer verde e torto
Por isso estou alto e esguio
Para fugir aos lamentos
Dos que me visitam com fastio.

Quando me sentires assim
Não queiras mais uma vez fugir de mim.
Aceita-me diferente
Igual a toda a gente
E tenta imaginar como foi difícil ficar
Preso a este lugar
Movendo-me ao sabor do vento
Tudo isto para te provar
Que é possível um novo entendimento
Enraizado nesta espera
Com vontade de te voltar a abraçar.

Morri
Por ti e pela recordação
Pelo silêncio
E pelos lamentos do meu coração.

Morri... vivo de outra forma
Vivo enquanto se forma
O esqueleto do meu novo pensamento
Que não deseja mais passar pelo tormento
De te ouvir lá longe
Como um lamento.

Quando vieres
Abraça-me só uma vez
E tenta ser cortês
Comigo e com a minha presença.
Quando me abraçares
Peço-te que o faças levemente
E então
Compreenderás
Que eu estou diferente.
Mas ao sentires o meu coração
Saberás que mesmo assim
Vou te amar eternamente.

Joaquim Marques Cruz

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Reclamação

Que se dane a poesia
escreva eu com mais ou menos mestria
isto não dá, nem para comer...
hoje, na rua Augusta, a descer
do Rossio ao terreiro do Paço
fiz três paragens a ver três artistas de rua
muitos transeuntes, alguns nem abrandavam o passo
mas muitos, como eu, aplaudíamos a arte sua
com uma moedinha na cesta.
Aqui, na internet, a maior rua do mundo
tenho clientes fieis, diários, devem gostar do que faço
não deixam é moedinhas... dinheirinho para comprar os feijões
sim, que isto de viver da poesia é só ilusões
tenho pensado nisto, pensado nos leitores, pensado só cá com meus botões
hoje, não quero escrever poesia, escrevo-vos reclamações.

Joaquim Marques