Sou como um pêndulo
Igual ao do carrilhão da minha avó
Para lá e para cá
Para cá e para lá...
E no preciso momento
Naquele segmento de tempo
Que medeia o vaivém
É precisamente ali que sou alguém.
Não sou nem triste nem alegre
Nem forte nem fraco
Nem mau nem bom
Nem fiel nem infiel
Nem presente nem ausente
Não estou nem cá nem lá
Estou ali, no meio, naquele instante.
Às vezes paro ali no tempo
Até que um impulso externo
Me devolve o movimento.
E assim levo a vida:
Atribulada na ida
Serena na volta.
Joaquim Marques
Sábado, 24 de Maio de 2008
Reedição, um ano depois
Quinta-feira, 22 de Maio de 2008
Depois de ler o teu blog
É provável que daqui não saia nada
Que isto não passe de um simples exercício de dactilografia
Há quem lhe chame, hoje em dia,
Processador de texto
É tudo a mesma coisa, o que me interessa é o contexto
Em que o subordinado se submete
Seja lá pela razão que for,
Pois eu sou agora um escriturário
Deixando que a tua vontade me transforme num funcionário
E digito, sem erros, o que me vai saindo
Escrevo, escrevo, desaprovo-me neste enredo
Em que não sai dada de interesse.
Mas afinal o que importa?
Nem sempre tenho a alma comigo
Nos dias Santos ela vai orar para algum lado
E eu fico aqui sentado digitando como um desalmado.
Eu sem alma escrevo sem calma.
Joaquim Marques
Quarta-feira, 21 de Maio de 2008
Indiferença
Falta de entusiasmo, de curiosidade, de paixão,
Insensibilidade, desinteresse, apatia, frieza,
Desprendimento, negligência, inércia...
Dicionário
Terça-feira, 20 de Maio de 2008
Livro III Poema 31
De que me serve ser detentor
Duma enorme tristeza?
Bastava-me uma pequena parcela
Do género duma quintinha entre vales
Repleta de árvores de folha caduca
Plátanos, carvalhos e castanheiros
Penedos cobertos permanentemente de musgo
Líquenes e cogumelos sempre a desabrochar
Tudo envolvido num suave manto de névoa
Num perene inverno encoberto,
E sempre que me apetecesse ia lá passar uns dias.
A minha tristeza é tão grande, tão grande, que eu ando, ando...
Perco-me em círculos e nunca consigo chegar à estrema
Cansado, retorno ao meu abrigo de pedra
Acendo a lareira e no crepitar da labareda
Encontro-me contigo
No sonho da felicidade em que vives
São tão breves estes momentos de felicidade
Cada vez mais espaçados porque a lenha está a acabar
E poupado como sou só acendo o fogo raramente.
Joaquim Marques
Segunda-feira, 19 de Maio de 2008
Livro III Poema 30
Haverá outra forma de encarar o novo dia
Que não seja sorrindo à tua presença
Mesmo que dissimulada na ausência
Do explicito sorrir que me habituaste?
A esperança no devir
A contínua forma que tenho de sorrir
A mim mesmo, sorrindo de olhos encharcados
Ao anúncio do meu devir mascarado
É a única forma que encontro de não desfalecer.
Fui construindo teias
Umas maiores, outras menores,
Outras refeitas
Outras contrafeitas
Sou uma aranha improvisada
Alimentando-me de insectos incautos
Que a uns sacia mas a mim deixam enjoado
Já tive sorte, agora já não caço
Limito-me a desfazer o embaraço
Que a teia que construía só o azar atraía...
Deve haver outra forma de encarar este novo dia
Nem que seja ver rosas em cima do telhado
Luas cheias reflectidas no meu lago
Os peixes púrpura caçando os gatos
Tudo em sublime desalinho....
Que Deus me ajude! Que Deus me ajude!
Joaquim Marques
Oração
Que Deus me perdoe
E me ajude a valer
Neste esforço que não consigo
Da morte vir a suster.
Tem piedade dos Homens
Senhor:
e de mim que Te concebo
Fonte de amor.
Auxilia sempre
Sem cessar
Senhor,
Auxilia-me sempre
Na forma do meu chorar.
Porque eu choro em mim
Aquilo que não sei,
Nem saberei
A fonte deste pensar ruim.
Joaquim Marques
Sábado, 17 de Maio de 2008
Livro III Poema 29
Hoje sou
Um poema sem palavras
Sem pontuação nem emoção.
.
.
.
.
.
.
.
.
Estás a ver o que me fizeste?
Esvaziaste-me!
Joaquim Marques
Sexta-feira, 16 de Maio de 2008
"Eu te proponho"
Amar só por amor
sem pedir nada em troca
sem dor.
Amar só por amar
sorrindo à felicidade alheia
mesmo que seja a cantar.
Joaquim Marques
Quarta-feira, 14 de Maio de 2008
Titubeante
Rodo que rodo e torno a rodar
faça o que fizer aos teus braços vou parar
se paro e me quedo acho ainda muito cedo
se rodo tenho medo
de não te voltar a encontrar
é amor eu sei só o não sei arrogar.
Joaquim Marques
Terça-feira, 13 de Maio de 2008
Livro III Poema 28
Visita-me no meu peito
mesmo a despeito do
despeito
que se apoderou de ti
no meu peito
adubado e mondado
cresce um suave manto de musgo
para que ao pisar não te magoes.
Joaquim Marques
Sábado, 10 de Maio de 2008
Sermão de S. Joaquim aos peixes
Quarta-feira, 7 de Maio de 2008
Livro III Poema 27
Já não sinto nada
Nada
Já não sinto
Nada
Já não
Nada
Estou dormente
Dor da mente
Dor que mente
Já não sinto nada
Nada
Já não sinto
Nada
Já não sou
Nada
Convincente
Isso convicente, com o Vicente?!
Não, não foi com o Vicente
Nem convincente
Nem nada
Já nem sou nada
Nada
Já me sentes dormente?
Joaquim Marques
Terça-feira, 6 de Maio de 2008
Livro III Poema 26
Dizes que amas
Amas com amor?
Gosta simplesmente
Gosta com amor
É mais fácil e eterno e não causa dor.
Joaquim Marques
Sábado, 3 de Maio de 2008
Invertido
Creio, e gosto de acreditar em Deus para além do que me ensinaram
Como gosto de ouvir o noticiário apesar de não crer nos seus emissários
Como gosto de mim para além da figura quando me olho ao espelho
É enganador aquilo que nos querem fazer acreditar
Nas imagens espelhadas no Templo dos Mídia
É o invés
Eu creio, e gosto de acreditar que sou o inverso de mim.
Joaquim Marques
Quinta-feira, 1 de Maio de 2008
Livro III Poema 25
Às vezes tenho vergonha de escrever
Mas gostava tanto de ser diferente
E descobri que não ser igual a toda a gente
É ser analfabeto, iletrado e tudo desconhecer.
Prolifera com a Internet, por todo o mundo
A abundância das oportunidades
É a democratização da feira das vaidades
Nos textos e linhas sobrepostas sem sentido profundo.
Eu tenho plena consciência
Que o que escrevo e o que penso
É lixo, e ninguém terá paciência
De os ler, muito menos de os copiar
Estes textos pobres que deixo em suspenso
Até que a lucidez me abençoe e deixe de os publicar.
Joaquim Marques

