No quarto quente,
São lençóis frios
O pensamento e a gente,
Que sente,
No escuro quente,
A melodia ardente,
Dos pingos frios.
Ao raiar da aurora,
Que o tempo em tempo
Explora, é
Belo o sonho sonhado,
O frio arrancado
Ao pensamento e à gente,
Que sente,
A luz quente
Na manhã fria.
Fora, pisando a areia
A figura cansada,
O rosto rasgado
Sente, e sorri
À melodia ardente
D’um chilrear pegado.
E caminha em frente,
Torna-se crente
No pensamento da gente,
Que sente
A luz quente
Na manhã fria.
Joaquim Marques
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
Livro IV Poema 12
Recordo-me do dia, em que calmamente bebia
seis garrafas de cevada fermentada
nos princípios das noites que o pensar trazia
tardes tardias como alvoradas passadas, presentes nos meus dias.
Recordo-me que nos momentos de ebulição
das experiências trabalhadas sobre a vontade de me conhecer
tardia a tarde, numa chama que ténue ardia
e a cevada escorria goela abaixo, anestesia local, desnecessária
era eu, o que na altura nem me sabia, disposto a pensar do que seria
a palavra em mim, reencontro com futuros de passados revisitados.
Tanto tempo após, tanta letra que compus a sós
já não penso com a ajuda da dita, a cevada fermentada na escrita
já nem sei às vezes, ou à mais da vezes, saberei que jorrar
letras de dentro, sem nada que entre para ocupar a parte vomitada
em quadras, letras em frases sobrepostas, que ao saírem mal postas
confundem-me mais que me fundem, e zango-me com a falta de jeito
deste peito, o meu, dos vários que um dia Deus me deu
dados, desnecessariamente fados cantados de prantos passados.
Há poetas, escritores, gentes iluminadas, pensadores com muita estrada
gente que admiro pela facilidade da expressão do que aos outros encontra razão
de traduzir no sentir das interpretações, os motivos que a vida citada lhes dá sem dar nada
aos que lêem, dos que gostam de o fazer, de ler o que não sabem escrever
desses seres, que sendo muitos, tão pouco representam.
Velhas garrafas de cevada, bebidas em tardes pegadas
naquelas esplanadas da Angra que me consolidou
um marinheiro de águas calmas construtor de veleiros no meio do deserto
contendo a raiva que de mim sinto, quando escrevo o que penso que sinto
sem saber porque sinto o que que escrevo quando não sei ser humilde.
Se bebesse a cevada fermentada que já não existe, será que seria o mesmo triste
o mesmo homem que em mim existe, fechado, calado, taciturno e descente?
Ser quem sou, sem ter sido o que fui, não seria a personalidade ausente
das coisas simples, das coisas belas e fáceis, que me rodeiam e desprezo.
Contraditório, não me mereço, lutei tanto por ter um endereço
recebi imensas cartas, todas imaginadas, e não cuidei de abrir os sobrescritos
que, amontoados, sustentam a mesa do meu bem estar.
Joaquim Marques AC
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Visitante
Gosto de te saber caminhando pelos próprios pés
quando me visitas, sorrateiro, sem dar nas vistas
sabendo que eu sei que chegas à minha fonte, bebendo
o cálice do mosto em início de fermentação, e sais num ápice
para que jamais saiba quem és. Atado quedo de mãos e pés.
Joaquim Marques AC
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
Ausências
Na roseira da vida
observei um botão
e ao afeiçoar-me a ele
adoptei-o
meu irmão.
O perfume da sua presença
basta ao silêncio
das palavras que não são ditas
por isso
é que noto a sua ausência
nos jarrões que invento
por sobre as mesas vazias
de meu conviver.
Joaquim Marques
observei um botão
e ao afeiçoar-me a ele
adoptei-o
meu irmão.
O perfume da sua presença
basta ao silêncio
das palavras que não são ditas
por isso
é que noto a sua ausência
nos jarrões que invento
por sobre as mesas vazias
de meu conviver.
Joaquim Marques
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Livro IV Poema 11
Nasce quente o dia presente
a alvorada toca à minha porta fechada
levemente
desperto sonolento à jornada, de madrugada
crente
que a frescura dos Verões passados, hoje
ausente
leve, levemente, os meus passos, amanhã
evidentemente
até ti, rosa florida por entre espinhos do cacto que serei.
Joaquim Marques
terça-feira, 4 de agosto de 2009
Livro IV Poema 10
Deste um pontapé na escuridão e
Alva, a tua luz iluminou a madrugada
Neste dia, deste Agosto, pensamentos de gosto
Invadiram a minha memória.
Joaquim Marques
Alva, a tua luz iluminou a madrugada
Neste dia, deste Agosto, pensamentos de gosto
Invadiram a minha memória.
Joaquim Marques
sábado, 18 de julho de 2009
Jumento
Já me li inúmeras vezes
e ao ler a lida palavra, solta-se despregada
do sentido atendido à época.
Procurei, e mesmo assim não sei
se da procura que em ti busco
resulta inspirada a reflexão da luz ténue
que mesmo assim ofusco
na hilariante procura do veio, centrípeto,
do ser que não conheço e alimento.
Digo-me ao espelho:
se julgas que ao ler as tuas atoardas
o outro, de ti, em ti, por ti, sacia-se sedento,
és um jumento!
Sou aquilo que não sei,
menos que jumento não serei
e isso já me conforta.
sábado, 6 de junho de 2009
Eleições
Exuberante exagero vagueia pelo pensamento
atordoado pela atoarda lançada
em vil palavras vomitadas
pelos candidatos a cândidos actos,
e eu, o seu alvo desacertado, incólume permaneço.
Depois de amanhã haverá novo começo
entretanto, adormeço.
Sonha, sonha meu herói
sonha, que sonhar não dói
faz votos devotos nos votos postos.
Ouço a voz do povo,
e dos mudos, dos cegos e surdos
sinto-lhes a vontade:
sonham acordar envoltos em sorrisos de esperança banal.
Joaquim Marques AC
atordoado pela atoarda lançada
em vil palavras vomitadas
pelos candidatos a cândidos actos,
e eu, o seu alvo desacertado, incólume permaneço.
Depois de amanhã haverá novo começo
entretanto, adormeço.
Sonha, sonha meu herói
sonha, que sonhar não dói
faz votos devotos nos votos postos.
Ouço a voz do povo,
e dos mudos, dos cegos e surdos
sinto-lhes a vontade:
sonham acordar envoltos em sorrisos de esperança banal.
Joaquim Marques AC
quinta-feira, 5 de março de 2009
"Se pudesse desejar"... desejaria:
Que a palavra brote de Ti,
como brotam as árvores em final de Inverno
e desse brotar
para quem leia e saiba ver
renasçam Primaveras constantemente
nos espíritos aventureiros
dos humanos em busca do belo.
Joaquim Marques
como brotam as árvores em final de Inverno
e desse brotar
para quem leia e saiba ver
renasçam Primaveras constantemente
nos espíritos aventureiros
dos humanos em busca do belo.
Joaquim Marques
sábado, 14 de fevereiro de 2009
Livro IV Poema 06
Não nos confundas!
Eu sou um marujo de águas rasas
do meu ribeiro não chegarei ao mar
nem a minha barca irá alcançar a outra margem
estou preso à barca e ela a mim e ambos assim
gostamos de estar
deste lado da margem
sem corrente, sem forças que nos levem de arrasto.
Portanto não nos confundas
há mais Joaquins a navegar
noutras águas
mais fundas
noutros rios tão grandes que se confundem com o mar.
Joaquim Marques AC
Eu sou um marujo de águas rasas
do meu ribeiro não chegarei ao mar
nem a minha barca irá alcançar a outra margem
estou preso à barca e ela a mim e ambos assim
gostamos de estar
deste lado da margem
sem corrente, sem forças que nos levem de arrasto.
Portanto não nos confundas
há mais Joaquins a navegar
noutras águas
mais fundas
noutros rios tão grandes que se confundem com o mar.
Joaquim Marques AC
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