sábado, 28 de maio de 2011

dúvidas e porquês

Há lá coisa melhor do que ser português?
Talvez...
Mas, na dúvida, trago um gole de tinto de Santa Marta
(de Penaguião, pois então)
uma lasca de presunto das Beiras
uma côdea de trigo do Alentejo
uma fatia de queijo de mistura de Penela
e questiono-me: será que ela
na dúvida instalada
concorda com a minha certeza?
Melhor que seres uma portuguesa
melhor que qualquer das dúvidas
é ter-te, imaginando, de cálice na mão
num brinde à ocasião
em que o presunto se pega ao pão
como eu me apego ao teu coração.
Há lá coisa melhor que isto?
degustar-te pelo olhar
no imaginário da tua presença
à mesa, insisto
na lasca de queijo que te coloco nos lábios
na côdea extreme
que mordiscas em silêncio
como um banquete, de pão, queijo e presunto
ao que ao vinho junto
numa comunhão de vida
aqui, na grande cidade, ou num parque de merendas do Gerês.
Ainda te restam dúvidas? Talvez?!
Melhor do que ser português
é a tua presença
sem hiatos de verbo e tempo, perene, de vez.

Joaquim Marques AC

sábado, 21 de maio de 2011

em comum

al me ida
lida meiga
minha alma
est tua
inter
dose
amorosa

Almeida limpa a Cruz


Joaquim Marques AC

domingo, 8 de maio de 2011

tímido

quero chegar à fala contigo
e não sei como to digo
se directo, sendo indiscreto
se no silêncio do meu desejo
se nas palavras do meu ensejo
conquisto a tua atenção
do que eu sei, não sabes
do que sabes, eu não
tímido me quedo à espera
em vão, espero que não.

Joaquim Marques AC

domingo, 1 de maio de 2011

desiludido

tenho tanto para dizer
e nada te digo
fico sem palavras
e silencio o castigo

a presença
da tua indiferença
amordaça a minha ausência

Joaquim Marques AC

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Carregam os burros
Albardas de esperança e sentimento.
Cantemos a eles –
Esperança da civilização!





Joaquim Marques AC

sábado, 1 de janeiro de 2011

Sou maçã madura
Suculenta e dura
Sou fruto tropical
Ao teu gosto especial
Sou alimento campestre
Sou fruto silvestre
Baga negra e rosa vinho
Quero ser comido no teu ninho
Sou pêra, sou abacate
Não há outro estímulo que me acicate
Sou o que tu quiseres
Vem depressa, não esperes
Sou fruta amadurecida
À espera de ser colhida.

Joaquim Marques

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O Natal do menino

Ó Menino Jesus
que um dia nasceste para morrer na cruz
quem hoje Te fala, sou eu
sim, este eu que ainda não morreu
nasceu, como todos fizeram
todos disso temos em comum
nascer, comer, dormir e viver
para um dia falecer
uns pregados na cruz, como Tu ó Jesus
outros onde calhou...
para semente ninguém cá ficou
nem Deus, o Teu Pai, a Ti isso deixou
se tiveste descendência, a Bíblia não nos contou...

Isto da vida humana, agora é coisa insana.
Na sociedade do tempo em que vivo
alguns humanos de boa ventura
atrevem-se a viver com os pobres e a certa altura
regressam ao seu céu na Terra
para nos contar a vida dos pobres, como era.
Chamam-lhe solidariedade e voluntariado
distribuem sopas quentes aos indigentes
deitados sobre camas de cartão,
debaixo de arcadas, em cidades civilizadas
só não se vestem como os Reis Magos
mas em tudo é parecido, doam oferendas aos sem abrigo
o mesmo que aconteceu Contigo
como nos contam as Escrituras.

O que Te digo, ó meu Menino Jesus,
é que o Mundo de agora é subterrâneo
cada humano parece uma avestruz
viam melhor a vida de cima duma cruz
mas preferem o instantâneo
e hoje em dia há vacinas, para tudo, até para o tétano
doença que Te deve ter aperreado
sim, que isto de estar três dias pregado...

Mas, escuta, foi melhor assim!
Se tivesses nascido hoje e alguém tivesse denunciado
as parcas condições, desde o parto às pobres vestes
tinham-Te tirado aos Teus pais, davam-Te para adopção
e  prontos...já não haveria religião
nem Natal, nem árvore, nem qualquer comemoração
eras como eu, um simples cidadão...
Feliz aniversário!

Joaquim Marques AC

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Céu encoberto
tão longe ficou o perto
de dia é branco, à noite deserto
à luz dum futuro incerto.

Joaquim Marques AC

terça-feira, 30 de novembro de 2010

E que te dizer, amigo
Para além de tudo o resto?!
Sonhar é para o que presto
Sem aulas, sem preparação, só de ouvido, por intuição
Fugindo assim dum sentir que carrego comigo
De que a minha vida é uma merda, uma ária que fui compondo.
Que discordas, sei bem, sei-te e sei de mais alguém
Olhares de fora, olhares que vos convém
Do que vos mostro quando vos escondo
A algibeira rota, sem vintém.

Joaquim Marques AC

domingo, 14 de novembro de 2010

Escuro como breu

Cumpro pena. Estou prisioneiro na solitária domiciliária cárcere construída por mim. Construí um jazigo e nele este túmulo para usar em vida. Logo após a libertação irei tornar-me guia turístico, sem poiso nem destino e se, por acaso, passar por aqui, deixarei em cima do telhado uma flor de luz.