quinta-feira, 31 de maio de 2007

Foi há muito tempo
Aquele dia de ontem que me fez sorrir
E gritar ao vento ecos de inocência
Que brotavam em mim.
Recordo-o, esse dia distante
No tempo e no espaço que não sei percorrer
Na direcção que não sei tomar,
Correndo sem cessar
Em círculos que só eu sei descrever,
Pensando, repensando
A recordação que não encontro
Dos passos que fui dando.


Joaquim Marques

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Não sou uma pessoa vulgar
Um tipo comum
Desses fáceis de conquistar
Porque se fosse
Qualquer pessoa me conseguia aturar.
Procuro em mim a perfeição
Gosto de fazer tudo bem feito
Especialmente na asneira sou exemplar.
Joaquim Marques

terça-feira, 29 de maio de 2007

Vai uma cervejinha
Em jejum
Bem fresquinha?
Vá lá, não sejas careta!...
Essa história do álcool é uma treta!
Não penses que tens uma vida saudável
Só porque fazes exercício!
Vais morrer antes dos outros
De tão perfeita que levas a vida
Mas morrerás atormentado
Por nunca teres experimentado
Outros prazeres
Que para ti agora são um suplício.
Todos temos um dia que ir
Por uma razão ou por outra
Não morres de cancro do fígado
Nem do pulmão
Mas
Morrerás
Pois então
De tão saudável que agora estás.

Há coisa mais deprimente
Que morrer cheio de saúde?!
Dos médicos não sou cliente
E faço de tudo para lá ir
Mas nada me acontece...
Será que é por beber um copo
Sempre que me apetece?


Joaquim Marques

domingo, 27 de maio de 2007

Sentei-me, levantei-me
Sentei-me e voltei-me a levantar
Tenho tanto para me dizer
E nem sei por onde começar.

Há dias em que estou assim
Cheio, repleto.
É tanta a paz,
A dúvida, a incerteza
É tanto de tudo e nada me apraz.
Procuro então em mim o rapaz
O jovem astuto
O adulto capaz
De saber viver este calmo momento
Com a mesma energia com que vivo o tormento.

Sou mais que uma represa
Sou uma barragem cheia
Tão cheia que tenho que rejeitar
A água que antes eu clamava
Quando antes era um açude cheio de nada
Quando em vez da água só havia ar.
Porque é que eu sou assim?
Porque é que nunca estou satisfeito?
Quem me deu o direito
De andar sempre contrafeito?
Às vezes ponho-me a pensar
Na vida que gostava de levar
Até penso nos versos que canto
E me pergunto porque não estão a rimar
E quando rimam, não gosto de os cantar.
Pois é, tenho dias assim
Tenho dias em que me sinto sem mim
Sem saber onde me encontrar
Sem saber se devo rir ou chorar.

Joaquim Marques

sábado, 26 de maio de 2007

Está o céu
Cinzento escuro
Precipitam-se pingos de chuva.
Cá dentro
No meu recanto
Nesta casa calada
Há tanta luz
Que irradia
Como o Sol
Na alvorada.


Joaquim Marques

sexta-feira, 25 de maio de 2007

As palavras só me saem
Quando têm de sair
Portanto quando as forço
É melhor desistir
E assim sendo terminar
Com um risco acentuado
A veleidade de encontrar
A ideia principal
Das palavras e dos versos
Que te façam
Aquele poema original.


Joaquim Marques

quinta-feira, 24 de maio de 2007

Nunca mais
Escrevi poesia
Do que pensava e sentia
Nalguns momentos
Em certos dias.

Nunca mais
Fui a incógnita
Do meu pensar preocupado
Quando sonho acordado
As resoluções do meu querer.


Joaquim Marques

terça-feira, 22 de maio de 2007

Vou ser breve
Simples e directo:
Sinto-te perto
Lá longe noutro lugar.


Joaquim Marques
Angra do Heroísmo
12/10/1984

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Foge o dia
fogem os olhares
esses máximos
olhares sem fim.
Tudo Foge
e eu aqui sentado,
a perna enferma
que olho
com olhos que me fogem.
E eu que também
costumo fugir
e sair
ouvir tudo o que no
silêncio é nada.
Foge o dia
toda a alegria,
todo o vento,
a espuma da baba
que expilo.
Foge-me o olhar
foge a morte
foge a vida
fogem todos
fujo eu aqui sentado
fugindo a mim e à cadeira que agarro.


Joaquim Marques

domingo, 20 de maio de 2007

Nem sei por onde começar...

Mas vale a pena sempre tentar
Lembrar o que não sabemos esquecer:
Os percursos da vida vivida a correr
Os hiatos nas nossas emoções,
Tudo aquilo que nos fez sentir heróis
Nessas pequenas batalhas de fantasias,
Nessas alturas, nessas noites que serão sempre dias
Nesse enrolar de nós mesmos como fazem os caracóis
Nesses sons estrondosos como os dos trovões
Que são os gritos da nossa alma, do nosso querer
E tudo o mais que não se saboreia à mesa de um jantar.

E assim sendo
Saboreando as sobremesas do pensamento
No silêncio que sempre fazemos
Quando nos escutamos no meio da conversa dos outros,
Acontece em nós mesmos a exaltação
Desses momentos passados, presentes e planeados
Tão diferentes do nosso agir quotidiano
Mas que nos identifica e diferencia neste universo
Que são as constelações dos nossos relacionamentos com a vida.

Lembras-te meu amigo,
Daqueles momentos ténues que passaste contigo?
Lembras-te de que enquanto criança
Já o teu querer tinha uma esperança?
Recordas-te dos tachos e das panelas,
Agarrado às fraldas da tua mãe
A altura a que ficavam as janelas
As grades do teu berço
As viagens da tua imaginação,
Recordas-te como era saboroso olhar através delas?

Pois é assim amigo
Quis agora partilhar isso contigo e comigo,
E sabes porquê?
Porque no quotidiano nem sempre a gente se vê
E ele é feito de dias sucessivos
De ventos e marés
De calmarias e alegrias
De cinemas e televisão
De músicas que nos tocam o coração
De jardins floridos
De olhares queridos
De árvores de pele despida
De pessoas que encontramos na rua de mão estendida
De autoridades legítimas
De filhos que gritam ao colo dos pais
De cachorros de rabo entre as pernas
De caniches que deixaram de ser tratados como animais
De contradições que todos os dias nos chegam pela rádio
Das promessas dos chefes das nações
Das satisfações que temos que prestar aos patrões
Dos finais de mês em que contamos os tostões
Da falsa felicidade dos idosos nos bancos de jardim
De tanta coisa que não diz respeito a ti nem a mim
Do carro que de manhã não pega
Da beleza de um relvado envolvido na neblina de uma rega
Do parente que há muito a gente não vê
Dos amigos que vivem longe...
A vida do dia-a-dia é feita de tudo isso
E só tem sentido
Quando nos encontramos connosco
Quando em consciência ao beijar o nosso amor
Esquecemos aquela dor
Aquele discurso tosco
E encontramos em nós mesmos o aliado esquecido:
A recordação de quem fomos e somos.

Joaquim Marques