segunda-feira, 21 de maio de 2007

Foge o dia
fogem os olhares
esses máximos
olhares sem fim.
Tudo Foge
e eu aqui sentado,
a perna enferma
que olho
com olhos que me fogem.
E eu que também
costumo fugir
e sair
ouvir tudo o que no
silêncio é nada.
Foge o dia
toda a alegria,
todo o vento,
a espuma da baba
que expilo.
Foge-me o olhar
foge a morte
foge a vida
fogem todos
fujo eu aqui sentado
fugindo a mim e à cadeira que agarro.


Joaquim Marques

domingo, 20 de maio de 2007

Nem sei por onde começar...

Mas vale a pena sempre tentar
Lembrar o que não sabemos esquecer:
Os percursos da vida vivida a correr
Os hiatos nas nossas emoções,
Tudo aquilo que nos fez sentir heróis
Nessas pequenas batalhas de fantasias,
Nessas alturas, nessas noites que serão sempre dias
Nesse enrolar de nós mesmos como fazem os caracóis
Nesses sons estrondosos como os dos trovões
Que são os gritos da nossa alma, do nosso querer
E tudo o mais que não se saboreia à mesa de um jantar.

E assim sendo
Saboreando as sobremesas do pensamento
No silêncio que sempre fazemos
Quando nos escutamos no meio da conversa dos outros,
Acontece em nós mesmos a exaltação
Desses momentos passados, presentes e planeados
Tão diferentes do nosso agir quotidiano
Mas que nos identifica e diferencia neste universo
Que são as constelações dos nossos relacionamentos com a vida.

Lembras-te meu amigo,
Daqueles momentos ténues que passaste contigo?
Lembras-te de que enquanto criança
Já o teu querer tinha uma esperança?
Recordas-te dos tachos e das panelas,
Agarrado às fraldas da tua mãe
A altura a que ficavam as janelas
As grades do teu berço
As viagens da tua imaginação,
Recordas-te como era saboroso olhar através delas?

Pois é assim amigo
Quis agora partilhar isso contigo e comigo,
E sabes porquê?
Porque no quotidiano nem sempre a gente se vê
E ele é feito de dias sucessivos
De ventos e marés
De calmarias e alegrias
De cinemas e televisão
De músicas que nos tocam o coração
De jardins floridos
De olhares queridos
De árvores de pele despida
De pessoas que encontramos na rua de mão estendida
De autoridades legítimas
De filhos que gritam ao colo dos pais
De cachorros de rabo entre as pernas
De caniches que deixaram de ser tratados como animais
De contradições que todos os dias nos chegam pela rádio
Das promessas dos chefes das nações
Das satisfações que temos que prestar aos patrões
Dos finais de mês em que contamos os tostões
Da falsa felicidade dos idosos nos bancos de jardim
De tanta coisa que não diz respeito a ti nem a mim
Do carro que de manhã não pega
Da beleza de um relvado envolvido na neblina de uma rega
Do parente que há muito a gente não vê
Dos amigos que vivem longe...
A vida do dia-a-dia é feita de tudo isso
E só tem sentido
Quando nos encontramos connosco
Quando em consciência ao beijar o nosso amor
Esquecemos aquela dor
Aquele discurso tosco
E encontramos em nós mesmos o aliado esquecido:
A recordação de quem fomos e somos.

Joaquim Marques

sábado, 19 de maio de 2007

Tens o rosto fino e belo
Sorris e eu imagino o teu falar,
Teu semblante –
Meu carinho para te dar.

Olho em ti o que não vejo
A vida que te quero dar,
O amor do meu ensejo
Desta manhã a despertar.


Joaquim Marques

sexta-feira, 18 de maio de 2007

São quentes estes dias de Verão:
Dias de sol – todo-poderoso,
Abatendo-se sobre as cabeças
Dos Homens com pensamentos estéreis
- Porque são quentes e estéreis
As areias do campo seco.

Seco e quente o falar dos Homens
Deste mundo inteligente
Cada dia menos inteligível
Como o pensamento estéril e quente.

Brotam as fontes, secas de sabor,
Lânguidos os estáticos lagos adormecem
Secos de frescura, a onda que
Provoca o pensamento quente.

Tenho sede de mim
E dos pensamentos que não quero ter
Todos os dias quentes de Verão.


Joaquim Marques

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Atrevi-me a discordar
Do Pessoa
Quando li outro poeta grande
Maior que a dor que chorava
Tão grande que cantava
Cânticos ao amor traído.
E por tudo o que eu tenho vivido
Achei que nem tudo vale a pena
E este poeta sentido
Não tem a alma pequena!



Joaquim Marques

quarta-feira, 16 de maio de 2007

RETRATO


Mulher
De jovem sedução
Naquela silhueta simples.

Mulher
Duma individualidade diferente
E tão ausente
Dos seus sorrisos de simpatia
Que a vulgaridade entende.


Joaquim Marques

terça-feira, 15 de maio de 2007

RETRATO


Acontece
E a presença torna-se terna
E simples
E diferente
Da ausência sempre igual.



Joaquim Marques

domingo, 13 de maio de 2007

Quanto mais leio os outros
As formas diversas de se expressarem
As metáforas elaboradas usadas
As palavras sinónimas inusuais
As imagens cantadas sempre iguais
Mais penso em mim
No meu buraco profundo
Cada vez mais fundo
Onde me escondo, envergonhado
Coberto de culpas, sem me sentir culpado
De só saber cantar assim
Tudo o que sinto sobre mim.

Serei demasiado directo?
Deveria ser mais abstracto,
Menos concreto?
Nem sei porque me queixo
Quando penso no poeta Aleixo
Nas suas quadras populares
Ou na literatura de cordel.
Mas nem com eles quero ser comparado.
Quero tão só ser fiel
A mim e ao meu ensejo
Apesar de tudo o que vejo
Por aí publicado.



Joaquim Marques

sexta-feira, 11 de maio de 2007

Viver
Depois das sete?
Há quem diga boa…
Oh infrutífera!
Quem conhece a vida?
Olhai o zénite –
É no infinito que o fixamos –
Ele é abstracto, logo
Não vive.
Mas, …
Há quem viva
Depois das sete!


Joaquim Marques

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Não deixarei de falar ao vento
que a brisa me envolveu
em ternura caricia
e assim aconteceu a minha viagem
Oceano fora, mar adentro
aportando lá longe onde o sorriso fica perto
do vento fraco e da luz imensa.



Joaquim Marques