Quarta-feira, 7 de Maio de 2008

Livro III Poema 27

Já não sinto nada
Nada
Já não sinto
Nada
Já não
Nada
Estou dormente
Dor da mente
Dor que mente
Já não sinto nada
Nada
Já não sinto
Nada
Já não sou
Nada
Convincente
Isso convicente, com o Vicente?!
Não, não foi com o Vicente
Nem convincente
Nem nada
Já nem sou nada
Nada
Já me sentes dormente?

Joaquim Marques

Terça-feira, 6 de Maio de 2008

Livro III Poema 26

Dizes que amas
Amas com amor?
Gosta simplesmente
Gosta com amor
É mais fácil e eterno e não causa dor.


Joaquim Marques

Sábado, 3 de Maio de 2008

Invertido

Creio, e gosto de acreditar em Deus para além do que me ensinaram
Como gosto de ouvir o noticiário apesar de não crer nos seus emissários
Como gosto de mim para além da figura quando me olho ao espelho
É enganador aquilo que nos querem fazer acreditar
Nas imagens espelhadas no Templo dos Mídia
É o invés
Eu creio, e gosto de acreditar que sou o inverso de mim.

Joaquim Marques

Quinta-feira, 1 de Maio de 2008

Livro III Poema 25

Às vezes tenho vergonha de escrever
Mas gostava tanto de ser diferente
E descobri que não ser igual a toda a gente
É ser analfabeto, iletrado e tudo desconhecer.

Prolifera com a Internet, por todo o mundo
A abundância das oportunidades
É a democratização da feira das vaidades
Nos textos e linhas sobrepostas sem sentido profundo.

Eu tenho plena consciência
Que o que escrevo e o que penso
É lixo, e ninguém terá paciência

De os ler, muito menos de os copiar
Estes textos pobres que deixo em suspenso
Até que a lucidez me abençoe e deixe de os publicar.

Joaquim Marques

Quarta-feira, 30 de Abril de 2008

Impressões II

Divorciada,
Jovem, pensas tu
Livraste-te do fardo do matrimónio
Carregas a esperança de há vinte anos
Mas o tempo não volta atrás
Por isso conforma-te e deixa-me em paz!

Joaquim Marques

Impressões I

És feia
Do mais feio que tenho visto
E pobrezinha
Do mais indigente que existe
Apesar da indumentária luxuosa
Das pernas e busto bem feitos
Do olhar sedutor e atrevido
Dos lábios sensuais e sorriso fácil
Nem uma ruga, tudo no seu lugar
Pele sedosa, branqueada
Como a folha de papel branco
Que comprei para te descrever
Se em vez de cérebro, tivesses um disco rígido
Formatava-te.

Joaquim Marques

Quarta-feira, 23 de Abril de 2008

Livro III Poema 24

Fumo agora o meu último cigarro
Despeço-me dele sereno, tranquilo
Quero que um dia os meus trinetos saibam
Que foi assim que aconteceu
Nessa altura já nem deve haver cigarros
Mas hoje ainda se consegue comprar
E esta tranquilidade, este fumaricar sereno é especial
São nuvens que se esfumam à minha frente
É a neblina a levantar do Tejo
É o teu rosto lá longe que só sei imaginar
É pensar nos teus lábios que agora me faz fumar devagar
Tão devagar como o ultimo beijo que te darei
Faço sempre assim antes de repetir tudo de novo.


Joaquim Marques

Era noite,
Noite de luar
No meu quarto escuro,
Lá no fundo
No escuro infinito
Acontecia um julgamento.
Dois réus
Um só crime.
A sentença foi lida.
Um raio de luz penetrou e queimou!
Impune sociedade
Fui obrigado a intervir…
E terminei:
Errar é próprio do Homem!
Brotaram lágrimas
Soaram aplausos.
Era noite,
Noite de luar.
Adormeci.

Viseu, 1977

Joaquim Marques

Segunda-feira, 21 de Abril de 2008

Livro III Poema 23

Pedra, pedrinha
Grão de areia fina,
Que antes de seres cantado pela menina
Foste um pedregulho
Fizeste parte do entulho
Que a jusante jogaram ao rio
Perto da pedreira onde nasceste
E te fizeste rocha a céu aberto
Antes lençol de lava coberto pelo manto terrestre
Expelido pelo vulcão agreste
Que te vomitou e deixou arrefecer
Conserva em ti a vontade de voar
Para os brincos de cristal que vou ofertar
À menina que te quis cantar.

Joaquim Marques

Sábado, 19 de Abril de 2008

Li














Árvore velha Foto Mia Friedrich


Não receies, não tenhas medo
Porque o receio e o medo já existem nele
Essas árvores outrora frondosas, agora gigantes sem copa
Servem de ninho aos pica-paus porque estão ocas
E tu, florido arbusto, que tiveste a coragem de crescer ao seu lado
Tem agora o discernimento de não ter receio do vento
A ti, a tempestade humedece-te as raízes que te fortalecem
A ele apodrece-lhe o tronco
Deixa que venha a tempestade, enfrenta-a, precisas dela para crescer.


Joaquim Marques